O bom de morar em Resende, é que você entra e sai de uma
loja sem que os vendedores te interroguem sobre sua vida particular. Não sei se
pelo fato de minha vida ser pública, talvez eles já sabiam o que eu fazia e por
isso não perguntavam, mesmo assim me sentia mais à vontade para sair de casa a
fim de fazer qualquer coisa. Em são Paulo já é diferente, todos os dias já saio
de casa com o pensamento sobre qual desculpa eu vou dar sobre minha vida, pois
as pessoas daqui querem saber sobre tudo!
Não sinto vergonha por ter sido prostituto. Meu silêncio em
certos momentos é para evitar que a cada saída eu tenha que responder 300
perguntas sobre minha vida como garoto de programa e os motivos pelo qual fiz
esta escolha, como geralmente acontece. Outro ponto que me deixa exausto é
ouvir pessoas com o passado tão podre quanto o meu querendo dar sermão, dizendo
que isso é errado e vou para o inferno. Por este e outros motivos eu às vezes
omito sobre minha vida.
– Tá gostando de São Paulo ou pretende voltar para o Rio?
– Prefiro aqui. Sempre sonhei em morar aqui.
– Você trabalha com o quê? – Ela sabia sobre a função de todos os moradores do prédio, faltava apenas sobre a minha vida para que a curiosidade dela ficasse em paz.
– No momento não trabalho.
– Mas é formado em quê?
– Não estou estudando
– Mas é formado em quê?! – Insistiu ela! Aqui você tem que ter uma função para se encaixar no padrão que eles exigem.
– Departamento pessoal e contabilidade – Dois cursos que fiz na época, mas nunca exerci a função. Apenas disse para que ela ficasse satisfeita e fosse embora.
Na época eu estava terminando meu livro que estava pela metade e queria aproveitar o momento que meu blog estava sendo muito bem
acessado para divulgar meu lançamento. Frequentemente eu usava o salão de
festas para trabalhar, pois era um lugar gostoso e tinha liberdade com meus
pensamentos. Um dia fui abordado pelo porteiro.
– Desculpe perguntar, eu vejo você o dia todo no computador digitando e vi em seu Facebook que você viaja pelo mundo. Trabalha viajando? – Como eu iria explicar ao porteiro que minhas viagens eram para encontrar com clientes? Obvio que mudei de assunto.
– Estou escrevendo um livro e escrevo em um blog na internet.
– Ah, que legal! Muito bacana as viagens que você faz. – Ele até que era simpático, mas nada me tirava da cabeça que a síndica pediu que ele bisbilhotasse.
. De vez em quando eu levava um amigo para ficar em casa
comigo. Ele ia, a gente conversava, passava um tempo e ele ia embora. No fundo
ele estava incomodado por não saber sobre minha vida, e numa mensagem me
mandou.
– Não sei nada sobre você. Cheio de segredo. Não sei no que trabalha, de onde vem o seu dinheiro ou quem te banca. – Neste momento só me restou ser grosso, pois alguém que tinha conhecido há uma semana não tinha que dar satisfação sobre minha conta bancária a ele.
– Não tenho que dar satisfação para alguém que conheci a pouco tempo (e falei um monte de coisas mais). - Ele se desculpou, viu que foi inconveniente ao querer saber de algo que não era de sua conta.
. Este último caso foi o mais se noção que já vi. Ele dava
aulas de português aos orientais que moravam no meu prédio, acabei o conhecendo
e trocando telefone, depois de ele me dizer que dava aulas de inglês e francês.
Disse a ele sobre meu interesse em aprender línguas e que futuramente iria procura-lo.
Com o passar do tempo eu me mudei de casa, estava corrido por conta dos
trabalhos e do livro. Demorei uns dois meses – nesse tempo mudei de bairro – e o
procurei novamente.
– Oi, estou a fim de ter aulas com você.
– Oi, quanto tempo! Porque apareceu só agora?
– Muito trabalho, mudei de bairro e estou bem ocupado com algumas coisas.
– Quando e quantas aulas você quer ter comigo? – Francês era uma língua que eu queria muito ter aprendido, mas não sei quantas aulas eu teria que ter. Então disse a ele que não sabia quantas aulas seria necessário.
– Ah, já entendi. Já percebi qual é a sua. Você está querendo alguém para te bancar.
– ???
– O rapaz que estava te bancando naquele apartamento deve ter percebido que você estava explorando e te expulsou de lá, por isso você está morando neste bairro agora. – As pessoas não conseguem aceitar que você faça e more aonde quiser, de acordo com suas vontades. Se tiver dinheiro e resolver morar num bairro simples, você não é rico de verdade. Neste caso, como saí de um bairro nobre e fui para um bairro simples, alguém estava me bancando e ele achou que a próxima “vítima” seria ele.
– Golpe em um professor que ganha R$ 100,00 reais por dia? Jura?? Mudei de bairro, pois o apartamento que eu morava foi vendido e eu simplesmente o desocupei. Eu te entendo, deve ser difícil pra você ver alguém mais novo e bem sucedido na vida, né? Pois o que você ganha por mês eu gasto por dia.
Dificilmente vão te aceitar caso você seja um jovem negro
bem sucedido. Na primeira oportunidade vão dizer que você roubou o dinheiro,
trafica ou alguém te banca. As pessoas não aceitam seus fracassos e criticam o
sucesso dos outros. No meu caso, acha mesmo que vou ficar preocupado se moro
numa cobertura cinco estrelas ou na favela? Eu já morei na rua, não ligo pra
isso! Hoje em dia pra não falar que sou blogueiro - tem gente que acha que sou
blogueiro de moda – procuro dizer que sobrevivo com a renda do meu apartamento
alugado. Assim evita o cansaço de ficar me irritando com perguntas curiosas e
pessoas indiscretas querendo saber sobre minha vida particular.



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