Quando o conheci, vi alguém inteligente, educado e culto. Ao mesmo tempo, percebi uma insegurança profunda, e parecia difícil compreender como alguém com tantas qualidades pudesse enxergar tão pouco valor em si mesmo. Minha primeira vontade foi acolher e ajudar, acreditando que, com apoio e carinho, ele conseguiria reconhecer a própria importância. Com o passar do tempo, porém, comecei a perceber os motivos pelos quais tantas pessoas tinham dificuldade em manter uma convivência próxima com ele.
No começo, uma das coisas que mais me aproximou dele foi a sensação de que éramos muito parecidos. Eu enxergava semelhanças na forma de pensar, nos interesses e até mesmo em alguns sonhos. Talvez tenha sido justamente isso que me fez me apaixonar ainda mais. Mas, com o passar do tempo, percebi que aquela semelhança existia muito mais na minha imaginação do que na realidade. Enquanto eu passava dias pensando em formas de construir um futuro melhor para nós dois, fazendo planos, buscando oportunidades e sonhando com conquistas que pudessem beneficiá-lo, as prioridades dele pareciam estar em outro lugar. Eu estava preocupado com estabilidade, crescimento e realização pessoal. Ele parecia muito mais interessado em viver fantasias sexuais com outras pessoas, buscar validação e satisfazer desejos momentâneos. Essa diferença começou a me frustrar profundamente.
A insegurança que inicialmente despertava minha empatia começou a se transformar em conflitos. Durante muito tempo achei que era apenas impressão minha, até que ele admitiu sentir inveja de mim. Dizia se incomodar com a facilidade que eu tinha em conquistar a simpatia das pessoas. Ele demonstrava desconforto quando eu recebia elogios, atenção ou carinho. Muitas vezes perguntava: “O que você tem que faz as pessoas gostarem tanto de você?”. Hoje percebo que aquilo não era apenas curiosidade, mas uma frustração que ele carregava.
Eu tentava justificar seu comportamento de todas as formas possíveis. Pensava nos traumas da infância, no abandono do pai, nos problemas emocionais, no transtorno bipolar e até no fato de eu ter sido seu primeiro relacionamento homoafetivo. Acreditava que boa parte dos conflitos vinha de inseguranças e confusões internas que ele ainda não sabia lidar.
Cada encontro era imprevisível. Eu nunca sabia se seria tratado com carinho ou humilhado. Um dos episódios mais marcantes aconteceu na Avenida Paulista, quando ele berrava comigo na frente de todos, enquanto eu permanecia constrangido em silêncio. Depois, agiu como se nada tivesse acontecido: segurou minha mão, fez piadas, sorriu, me beijou e seguiu para a faculdade. No dia seguinte, pediu desculpas e reconheceu que havia passado dos limites. Mas o ciclo continuava: agressão, arrependimento e promessa de mudança. Foi nesse período que tive minha primeira crise de ansiedade severa e precisei de atendimento hospitalar.
As brigas se tornaram frequentes. Ele dizia que eu não gostava dele, que sentia que eu escondia segredos ou mentia. Até discordâncias simples viravam conflitos. Sem formação na área, fazia diagnósticos psicológicos sobre mim e se irritava quando eu não concordava, dizendo: “Por que você não assume que eu estou certo? Nosso relacionamento seria melhor se você aceitasse isso.” Chegou a afirmar que eu não gostava dele, por uma interpretação que fazia sobre meus olhos: "Você não gosta de mim, pois seus olhos não se dilatam quando me olha."
Com o objetivo de construir confiança, cometi um erro que jamais repetiria: revelei minhas maiores fragilidades. Compartilhei traumas da infância e dores que carregava havia anos. Esperava acolhimento. Em vez disso, recebi ataques. Aquilo que contei em momentos de vulnerabilidade passou a ser usado como arma durante as discussões.
No Parque Ibirapuera, durante uma discussão, ele passou a interpretar tudo o que eu dizia como uma provocação. Foi quando usou meus próprios traumas contra mim, me chamando de "doente mental " por ter tentado suicídio quando jovem, transformando uma das minhas maiores dores em uma ofensa. Aquilo me causou uma mistura de choque, tristeza e revolta. Eu estava diante de alguém em quem confiei, vendo uma vulnerabilidade minha ser usada para me machucar. Mesmo percebendo meu sofrimento, ele continuou com críticas e acusações. Pedi para que parasse, mas ele dizia que tinha o direito de falar o que pensava. Dias depois, ainda se colocava como vítima da situação e dizia que eu deveria pedir desculpas.
É incrível a facilidade com que ele seguia em frente após me machucar. Depois de discussões, humilhações ou comentários que me abalaram profundamente, ele parecia agir como se nada tivesse acontecido, dormia e comia tranquilamente. Enquanto isso, eu passava noites revivendo aquelas situações, tentando entender o que havia dado errado e buscando formas de consertar algo que parecia nunca ter solução.
Era inacreditável quando me cobrava por eu não estar feliz ou com um sorriso no rosto. Eu me perguntava como conseguiria demonstrar felicidade carregando o peso de tantas agressões emocionais. Com o tempo, entendi que minha tristeza não era falta de amor, mas o reflexo do desgaste de alguém emocionalmente exausto. As situações foram tantas que perdi a fome, deixei de frequentar eventos e até tarefas simples, como cuidar do meu próprio quarto, se tornaram difíceis. Eu que já sofria de depressão e ansiedade, fiquei pior após conhecê-lo.
Pouco tempo depois, fiquei gravemente doente com pneumonia e passei semanas acamado, com dificuldades para respirar. Amigos e familiares estiveram presentes, mas ele não demonstrou preocupação. Quando questionei, disse que tinha outras prioridades, como trabalho, faculdade e a própria mãe. Isso me marcou porque, quando ele precisava, eu estava sempre presente, inclusive em hospital, sem precisar ser chamado. Já quando a situação se inverteu, senti ausência e distanciamento.
Também me doeu perceber o contraste nas prioridades dele. Em uma situação, a cachorrinha de um vizinho foi atropelada, e mesmo depois de um dia de trabalho e faculdade, ele encontrou tempo e disposição para passar horas ao lado dela, demonstrando preocupação e cuidado. Enquanto isso, quando se tratava de mim, havia sempre justificativas para não estar presente. Quando tentei conversar sobre isso, ouvi que eu era carente. Para ele, estava tudo normal; para mim, era a percepção de que eu vinha sendo deixado de lado há muito tempo.
Uma semana antes de eu ficar doente, estávamos juntos, dormindo lado a lado, e ele dizia que queria trabalhar comigo para ficar perto e cuidar de mim. Literalmente você só sabe quem realmente gosta de você, quando você perde dinheiro ou fica doente. Sempre soube que não podia contar com ele, mas lá no fundo, eu tinha esperança de que ele pudesse mudar.
Eu me preocupava com ele nos mínimos detalhes, mas muitas vezes até os meus gestos de carinho eram interpretados da pior forma possível. Certa vez, ele me contou que tinha medo de perder o emprego, acabar sem condições de se sustentar e, nas palavras dele, terminar morando na rua. Ao ouvir aquilo, fiquei angustiado. Se dependesse de mim, jamais permitiria que ele passasse por uma situação dessas. Na tentativa de tranquilizá-lo, sugeri que, no futuro, poderíamos morar juntos e dividir as despesas. Minha intenção não era fazer um pedido de casamento nem pressioná-lo de qualquer forma. Eu apenas queria mostrar que ele não estaria sozinho caso enfrentasse dificuldades. Mas, em vez de enxergar aquilo como apoio, ele transformou minha fala em motivo de crítica. Passou a agir como se eu fosse uma pessoa desesperada ou emocionalmente desequilibrada, quando, na verdade, eu só estava tentando oferecer conforto diante de um medo que ele próprio havia compartilhado comigo.
Me machucava ouvir, durante as discussões, a frase: "Mas eu não pedi para você fazer isso por mim." Talvez ele tivesse razão. De fato, ele nunca pediu. Mas o que aquela frase ignorava era que tudo o que eu fazia nascia do carinho, da admiração e do desejo sincero de ver alguém que eu amava prosperar. Eu não fazia esperando recompensa. Só não esperava que ele fosse tão ingrato comigo.
Com o tempo, comecei a perceber um padrão em que ele parecia lidar com minhas inseguranças de forma seletiva. Quando algo o incomodava em relação às minhas amizades, eu tentava me afastar ou reduzir contatos para deixá-lo mais confortável. Porém, quando eu demonstrava desconforto, a reação era oposta: em vez de acolhimento, eu era acusado de manipulação, e ele muitas vezes mantinha ou até reforçava a proximidade com a pessoa em questão.
Além disso, ele frequentemente fazia comparações com outras pessoas, dizendo que alguém o lembrava da ex ou que era mais agradável de conviver do que eu. Eram comentários que sabiam me afetar e que, com o tempo, aumentavam ainda mais minha insegurança.
Durante aqueles sete meses, o relacionamento foi marcado por conflitos, humilhações e ciclos repetitivos. Hoje percebo que, quando ele gritou comigo em público e ultrapassou todos os limites de respeito, eu deveria ter ido embora — não por falta de amor, mas por falta de cuidado comigo mesmo. Talvez, se eu tivesse saído naquele momento, não carregaria tantas dúvidas, tristeza e o peso de tentar entender por que alguém que recebeu tanto cuidado respondeu com desprezo.
Hoje, quando nos cruzamos na rua e vejo sua expressão de ódio ao olhar pra mim, o primeiro sentimento que surge não é tristeza nem raiva, mas medo. Medo porque, no passado, aquele mesmo olhar era seguido por gritos, humilhações e situações constrangedoras em público. Por isso, passei a evitar certos lugares e a ter receio de encontrá-lo por acaso. No fundo, fica a dúvida sobre como ele interpreta esses encontros, como se fossem perseguição, quando para mim são apenas situações inevitáveis. E permanece a pergunta que não consigo responder: como alguém pode tratar dessa forma a única pessoa que, durante sete meses, esteve presente e se preocupou de forma genuína?
Não foi por falta de aviso. Antes do relacionamento, várias pessoas já haviam me alertado sobre sua personalidade difícil e sugerido que eu me afastasse, pois era claro que aquilo não me faria bem. Ainda assim, insisti, acreditando que os momentos bons do início poderiam voltar e que seria possível reconstruir algo em paz.
O que sinto não é exatamente saudade. Saudade existe quando sentimos falta de algo bom. O que me machuca é a decepção. É olhar para trás e perceber que investi amor, tempo, energia e sonhos em alguém que nunca pareceu valorizar verdadeiramente o que recebeu. Talvez a dor não venha da perda dele. Talvez venha da perda da pessoa que eu acreditava que ele fosse.
Após o afastamento, apesar da tristeza pelas atitudes e pelo sofrimento que vivi, minha vida começou a melhorar. Voltei a sair, viajar e estar com amigos. Ainda carrego o impacto de como fui tratado e o medo de encontrá-lo e enfrentar novamente sua fúria, mas reconheço que estou melhor assim. Estou buscando ajuda profissional para cuidar da minha saúde mental e dos efeitos que essa experiência deixou. Sei que será um processo, mas acredito que, com o tempo, minha mente também encontrará mais tranquilidade.









Achei interessante que você mostra a sua própria vulnerabilidade. Você admite que insistiu, que acreditou, que tentou justificar comportamentos e que demorou para aceitar alguns sinais. É um relato sobre como pessoas podem permanecer em relações difíceis por amor, esperança ou pela imagem de quem acreditam que a outra pessoa pode se tornar.
ResponderExcluirEsse texto não é sobre ódio.,é sobre compreender uma experiência, reconhecer dores, aprender com elas e seguir em frente com mais consciência e amor próprio.
ResponderExcluirÀs vezes a vida nos afasta de pessoas que amamos para nos devolver para nós mesmos. Que você consiga transformar essa dor em aprendizado e que nunca mais aceite menos do que merece.
ResponderExcluirLer sua história mostra que você foi forte até nos momentos em que achou que não seria. Que daqui para frente você viva relações mais leves, com respeito, cuidado e reciprocidade.
ResponderExcluirPessoas com comportamento narcisista não perdem apenas relacionamentos; muitas vezes perdem pessoas que realmente estavam dispostas a amá-las.
ResponderExcluirÀs vezes o maior presente que um narcisista pode dar é ir embora. Pena que a gente só percebe isso depois.
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