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| 20/11: Dia da consciência negra |
Não me sinto ofendido quando meus amigos me chamam de neguinho. Acho uma forma bem carinhosa e até trato minhas sobrinhas assim. Ofensa, para mim, é quando recebo um olhar ou gesto de reprovação por ser negro e de pessoas acharem que estou no lugar errado, tipo quando você entra em um restaurante e no olhar você consegue perceber que dizem “ o que ele está fazendo aqui?”.
Abaixo, algumas das coisas que me aconteceu, simplesmente
por ser negro ou estar malvestido:
- Estava entrando nas Lojas Americanas, em Resende, junto de um amigo. Primeiro entrei, e logo em seguida ele veio atrás. Na saída, de um jeito sem graça, ele me disse que no momento que entrei, os seguranças passaram um alerta de que um “suspeito” estaria entrando na loja. O motivo, além de eu ser negro, estava malvestido.
- Na época eu fazia programa na rua, ficava todas as noites parado numa esquina, próximo ao banco Itaú, também em Resende. Um dia fui abordado por um motorista de uma van que queria saber o motivo de todos os dias estar parado ali. Logo em seguida, me disse que não poderia ficar ali e exigiu que eu fosse embora na mesma hora. Detalhe: Ele nem ao menos mora ou trabalha ali perto.
- Meu amigo – também negro – estava recém-chegado na cidade, estava morando em um bairro nobre e eu fui visitá-lo. Era um bairro onde funciona uma faculdade, e quando estávamos a poucos metros de sua casa, a polícia nos para perguntando o que estávamos fazendo na rua (em um bairro cheio de bares e uma faculdade, não passou pela cabeça dele que poderíamos estar estudando, bebendo ou morando na região, como era o caso). Ele pediu documentos e em seguida, o policial que dirigia o carro disse de um jeito bem rude: “ Vocês não podem andar por aqui não!”. Como assim, não podemos andar numa cidade e bairro que moramos??? - Pensei comigo. A noite para meu amigo acabou na mesma hora, e fez questão de voltar pra casa por conta dessa humilhação desnecessária.
- Eu morava em um bairro nobre e estava do lado de fora da portaria do meu prédio esperando um amigo chegar. No local não havia porteiro e cada morador tinha sua chave do portão. Entra um casal e eu digo que poderia deixar o portão aberto, pois em seguida eu iria subir. Ele, que era segurança de um shopping da cidade, disse que não poderia, e por questão de segurança iria trancar o portão, já que não sabia se realmente eu morava ali. Enquanto eu pegava minha chave do bolso para provar que era um morador, sua namorada desesperadamente tranca o portão impedindo minha entrada. Depois recebi o pedido de desculpas, quando perceberam que eu realmente morava ali.
Eu e várias outras pessoas negras poderíamos passar dias
escrevendo situações de preconceito que diariamente vivemos. No meu caso, um
preconceito a mais, pois já não bastasse sofrer ataques por ter sido garoto de
programa, tenho que ouvir desaforos, piadas e humilhações por causa da cor de
minha pele. É um trauma que não consigo superar, por mais que eu seja bem
sucedido na vida, a marca do racismo sempre fica, e toda vez que saio na rua,
sempre acho que estão me olhando, me criticando ou me condenando por ser negro.
Talvez o que eu diga possa causar revolta, mas uma pessoa
que me representa é a Naomi Campbell. Ela, em fevereiro de 2001, foi expulsa da loja Voyage,
em Londres, que é exclusiva para sócios. A top gritou com os vendedores porque
eles demoraram para abrir a porta para ela. Segundo ela, eles deveriam tê-la
reconhecido imediatamente e facilitado seu acesso.
Quando leio notas de negros tendo atitudes assim, eu me
sinto vingado por todas as vezes que eu e todos os outros negros sofremos
ataques em lojas.
Se for preciso, educarei meu filho da mesma forma. Tudo para que ele não cresça em um mundo onde ele pode ser apedrejado por ser negro e não tenha futuramente os mesmos traumas que eu tive. O diferencial é que pelo menos ele terá alguém (eu) que vai lutar pelos direitos dele.
Estou cansado de ver pessoas atacando negros, gays, judeus, haitianos, etc...
Se for preciso, educarei meu filho da mesma forma. Tudo para que ele não cresça em um mundo onde ele pode ser apedrejado por ser negro e não tenha futuramente os mesmos traumas que eu tive. O diferencial é que pelo menos ele terá alguém (eu) que vai lutar pelos direitos dele.
Estou cansado de ver pessoas atacando negros, gays, judeus, haitianos, etc...




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